XI - Gatos e Âncoras - Parte 3

  Depois que perdi a Mity, como já contei aqui, ficamos só eu e o Stark, e ele acabou se tornando um símbolo de tudo que passei das peregrinações em São Paulo até a reviravolta total que me levou a músico de bar. 


  Quem já perdeu um animalzinho sabe como é o vazio que fica, a dor da falta, o sentimento de culpa por talvez não ter feito todo o possível para salvá-lo. E o Stark compartilha comigo deste sentimento, tanto que evito falar o nome Mity em casa, pois ele arregala os olhos e começa a procurar em todo canto e miar. E eu, obviamente, fico com um nó na garganta.


  Então, eu estava decidido de que o Stark seria meu último gato, para não ter que passar por isso.


 (A gente pensa que decide muitas coisas...)


  Em Abril de 2022, quando eu já estava quase completando um ano na rotina de músico, me deparo uma tarde com uma criaturinha escura e arrepiada em cima do muro dos fundos. A princípio pensei que fosse um gambazinho. Mas ao levantar e sair correndo, vi que era um gatinho preto. 


 Sempre tive fascínio por gatos pretos. São lindos, imponentes, maravilhosos.


Bem, esse não era. Realmente, parecia um gambazinho.


  Coloquei ração nos fundos do pátio e ele demorou um pouquinho para começar a se aproximar. Eu realmente não queria outro gato, então não liguei muito para tentar pegá-lo. Mas continuei colocando ração para ele, sempre que o via.


 
 Uma tarde, eu estava jogando videogame no quarto com o Stark deitado na cama comigo, quando ouvi o barulhinho de ração sendo devorada furtivamente. Levantei rápido, e só vi o risco preto correndo em direção à porta. Voltei a jogar, mas o Stark não voltou. Ficou montando guarda na comida.


  Em um momento, ele me olhou e deu um miado dengoso de aviso. E os barulhinhos de ração recomeçaram.


  Geralmente, um gato macho assume um posicionamento agressivo quando outro macho (especialmente não castrado) entra no mesmo ambiente. Mas parece que o Stark entendeu que o outro estava faminto, e o deixou comer.


 Eu fiz um chamego nele para demonstrar aprovação à sua generosidade, e ficamos ali, sentados no chão, olhando aquele morceguinho desasado devorar avidamente a ração. O pretinho olhou para nós, se preparou para sair correndo mas, como não nos movemos, voltou a comer. 

  
  Minha janela da cozinha estava com um vidro quebrado. O inverno estava chegando e eu precisava trocar aquele vidro, mas era a única entrada e saída que eles tinham quando eu saía para trabalhar. Então, preferi passar um friozinho todas as manhãs ao fazer o café, do que privá-los do passe livre. 


 O gatinho começou a vir todas as noites. Uma manhã, quando acordei, encontrei aquele novelinho preto enroladinho no sofá. 


  Naquele momento, percebi que eu havia sido adotado.


 No ensino médio, eu desenhava histórias em quadrinhos. Eu tinha um personagem chamado Gato Rex. Era um gato de rua todo estropiado, e em cada episódio ele acabava morrendo (como falei, não tive gatos na infância). Mas a criaturinha que chegou na minha casa era muito parecida com o personagem em si, então, aí estava o nome. Rex.


  O Rex tinha algo errado. Às vezes, enquanto comia, dava uns gritinhos e se afastava. Levei ao veterinário, disseram que era problema na garganta. Aproveitei e fiz os testes e vacinas, e tomou antibiótico para a garganta.


  Rasparam a região do pescoço para analisar o inchaço na garganta, e ele foi promovido de gambazinho a galinha polaca. Pobre Rex. Ficou mais parecido com os quadrinhos...


  Ele também tinha um problema de giárdia que foi difícil de tratar, já que era impossível dar comprimidos pra ele. O problema dos gritinhos continuou, e levei em outra veterinária, que percebeu que o problema era um dentinho e gengiva. O dente até hoje está firme demais para arrancar, então, de tempos em tempos, o levo para fazer uma limpeza e ele fica bem por uns meses.


  Rex parece nunca ter tido contato com humanos, e até hoje não gosta muito de colo. Mas está feliz em ter onde ficar, come pouquinho mas regularmente, gosta muito de leite, e os bons tratos fizeram ele trocar todo o pelo e hoje ele está lindo, embora não cresça em tamanho. Quando chamamos ele de "nenenzinho", ele deita no chão e mostra a barriga.


  Às vezes, tudo que a gente precisa é um lugar seguro, um pouco de carinho, e alguém que entenda como dá-lo.


  Boa semana!

 

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