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Mostrando postagens de fevereiro, 2024

XVI - Malas

  Era um começo de noite de sábado quente e agradável, e eu estava montando meu equipamento para tocar, animado, em um clima especialmente bom. Já haviam algumas pessoas nas mesas do pub.    Dois caras de mesas diferentes, que entendi serem músicos, começaram a interagir, falando mal de outro músico da cidade.   Mala 1: "Ontem eu vi o Fulano tocando em tal lugar. Tu vê, o Fulano, coitado..."   Mala 2: "Pois é. O cara tocava em uma banda famosa... Conhece, cabeludo, o Fulano?"   Eu fingi me enrolar com os cabos. Eles continuaram.     Mala 2: "O cara tocava em uma banda famosa, agora tá aí, tocando em bar. Tocando por prato de comida."   Mala 1: "Pois é, o que é a decadência da pessoa... Tá aí tocando em barzinho."   Eu não sei esconder quando tô puto. Sou transparente (e já engoli sapo demais na vida).   Aí o Mala 2 falou: "Ó, o cabeludo não gostou."   Eu falei que não tava entendendo o que eles queriam dizer. Eu valorizo meu t...

XV - Pastor Fê e a Igreja Invisível

  Lembram de um programa de televisão nos anos 90 que tinha um quadro chamado "Teu Passado Te Condena", onde eles pegavam aquela parte cômica da vida de um famoso, e levavam a público?   Bem, não sou uma celebridade, mas fiz este blog para quem quer conhecer minha história, então, vou fazer mais ou menos isso.   Esses dias, em uma loja, encontrei um... ESPERA! Antes de contar essa historinha, vou dar umas informações necessárias:   Quem me conhece, sabe que eu não gosto de religião.  Veja bem, não estou falando de intolerância religiosa, que seria desrespeitar uma pessoa por ela ser de uma ou outra religião. Simplesmente não acredito em nenhuma delas, mas possuo inteligência o suficiente para entender que, quem acredita, tem suas razões para acreditar, e que posso estar errado.   No fim das contas, tudo pode ser: o intolerante deus com letra maiúscula, o zumbi messias, a galera que fala com os fantasmas, as velas acesas para miniaturas, os 144 mil lambedore...

XIV - Fê Só Para Baixinhos

  Quando a pandemia estava quase no fim, e os  serviços básicos voltaram a funcionar, a vida noturna estava longe de reestabelecer a fonte de renda de quem dela dependia.   Então, a gente tinha que usar de criatividade e sorte.   Antes de vir embora de Sampa, eu havia adquirido um equipamento para fazer canecas personalizadas, e durante a pandemia isso me salvou. Mas agora, eu precisava de algo mais, e já estava farto de estar preso em casa. (E quem não estava?)     Foi nessa época que eu recebi a ligação de uma amiga falando de uma vaga para trabalhar com música em uma escola. E eu fiquei animado. Entrei em contato com a diretora, e lá fui eu fazer a entrevista.   Deu certo. A partir da segunda-feira, eu faria um trabalho que era basicamente cantar para crianças de até uns 5 anos, se não me engano, separadas em turmas por idade.   Bom, eu não tenho muita habilidade com crianças. Nunca quis ter filhos. Na verdade, é algo curioso: Eu simplesmente s...

XIII - Gatos e Âncoras - Parte 4

  Eu sempre digo que o número ideal de gatos em casa é dois. Assim, um faz companhia ao outro, e se estabelece um certo tipo de equilíbrio.   Mas a vida não é só sobre equilíbrio. É sobre lidar com o caos, é sobre situações que saem do nosso controle, é sobre aprender que somos criaturas frágeis e meio cegas em um mundo instável e cheio de neblina.    Muito raramente vivemos o que é ideal.   Em Outubro de 2022, quando o Stark e o Rex estavam em perfeita harmonia (o legítimo Yin Yang felino) , eu vi a postagem anunciando aquele peludo malhado, preto e branco, de longos bigodes e olhos amarelos grandes e expressivos para adoção.  Por ver que era um gato adulto (portanto mais difícil de ser adotado),  simplesmente me habilitei, sem pensar.    A situação me comoveu: ele estava jogado na beira da estrada, dormindo na sarjeta, e evidentemente era um gato de casa, abandonado. Entrei em contato e vieram me trazer ele imediatamente.   Ele chegou ...

XII - Aplausos

 Quando a gente trabalha com arte, aprende a adaptar a performance observando o comportamento do público. Isso acaba nos tornando, involuntariamente, sentinelas do comportamento alheio.    Eu podia escrever uma peça de stand-up contando as coisas que já vi. (Especialmente em relação a casais. A noite é engraçada e um tanto deprimente...)   Mas falaremos disso outra hora (tenho prometido várias coisas, eu sei. Calma, temos tempo!) . Aqui quero falar de um hábito básico quase geral do povo cachoeirense: não dar moral a ninguém, independente da qualidade do trabalho.    Tem bares específicos onde toco, nos quais se criou a tradição da participação saudável, da recepção calorosa e da valorização do meu trabalho. Esses são a razão de seguir fazendo o que faço! (E tem uma galera que, onde quer que vá me ver, sempre dá moral, mesmo quando toco a mesma música que já ouviram mil vezes.)   Mas no geral, nos demais ambientes, quando uma pessoa aplaude algumas can...

XI - Gatos e Âncoras - Parte 3

  Depois que perdi a Mity, como já contei aqui , ficamos só eu e o Stark, e ele acabou se tornando um símbolo de tudo que passei das peregrinações em São Paulo até a reviravolta total que me levou a músico de bar.    Quem já perdeu um animalzinho sabe como é o vazio que fica, a dor da falta, o sentimento de culpa por talvez não ter feito todo o possível para salvá-lo. E o Stark compartilha comigo deste sentimento, tanto que evito falar o nome Mity em casa, pois ele arregala os olhos e começa a procurar em todo canto e miar. E eu, obviamente, fico com um nó na garganta.   Então, eu estava decidido de que o Stark seria meu último gato, para não ter que passar por isso.   (A gente pensa que decide muitas coisas...)   Em Abril de 2022, quando eu já estava quase completando um ano na rotina de músico, me deparo uma tarde com uma criaturinha escura e arrepiada em cima do muro dos fundos. A princípio pensei que fosse um gambazinho. Mas ao levantar e sair correndo,...

X - Pelado

  Eu sei, eu sei, prometi publicar ao menos um texto por semana, mas meus dias têm sido curtos para o tanto que estou tentando fazer.   Vou contar.   Primeiro, fizemos alterações no formato da banda Rock de Bar, e nessa jogada, marcamos dois shows, o que me tomou um tempo para rever repertório, ensaiar, divulgar e tudo mais. Deu tudo certo.     E então, com as coisas indo bem, tive uma inspiração: usar minha música para tentar angariar fundos para uma instituição que cuida de animais de rua.    Me ajudaram com a situação do Freddy (o último hóspede do Château Borchhardt, um laranjão encrenqueiro muito ferido da vida, cuja história contarei em breve, junto com a dos outros filhos que a vida me trouxe) e, nesse processo, acabei conhecendo pessoas e vendo coisas que me fizeram crer que algo precisa ser feito pelos animais de rua.   Coisas que todos deveríamos ver.   Minha ideia era uma apresentação "de rua", onde eu tocaria minha música em uma p...