VIII - "Deve Chover Mulher!"
Existem alguns mitos quando se trata de músicos de bar. Que todo músico de bar bebe pra cacete, ou usa drogas. Que todo músico de bar é cachorro e mexe com a mulher alheia. Que todo músico de bar vive sem grana, toca por sanduíche e cerveja e, bem trovadinho, vende o corpitcho.
Adoram enquadrar a gente em clichês.
(Bom, nem todos são verdade...)
"Todo músico é safado" é um clichê que se usa bastante na hora de queimar o filme da gente. Se bem que, neste caso, o efeito pode ser contrário, uma vez que, no show business, todo marketing acaba sendo positivo.
É como quando você sai de um relacionamento e a pessoa fica falando absurdos de você. Sempre tem quem queira conferir se é verdade. (Falarei mais sobre confusões amorosas em publicações futuras. Não perca!)
Enfim, não sou um cara da noite. Salvo em raras ocasiões, encerro minha apresentação e dou o fora o mais rápido possível. Não é por mal. Dou toda minha energia na música e a bateria acaba. Só isso.
Voltemos aos clichês.
Logo que comecei a tocar, me deparava muito com a frase "cara, tu tocando na noite, deve chover mulher!" Bem, chovendo ou não, logo percebi que não escoava na minha calha. (Talvez a galera do pagode tivesse a calha maior.)
Ha-ha.
Isso me lembrou de uma ocasião. Era meu primeiro show em um pub que se tornara, depois, meu palco semanal.
Tinha essa mesa bem na minha frente, com quatro mulheres. Eram todas muito bonitas, mas o que me importava era que estavam cantando minhas músicas.
Exceto uma delas. Essa me olhava muito séria.
Boca aberta que sou, pensei que ela estivesse odiando meu som. Na minha cabeça, ela pensava "Quem esse cabeludo acha que é? Quem deixou esse cara cantar?" Aí ela falou algo no ouvido da amiga, e imaginei que fosse exatamente o que eu tinha pensado.
Não muito depois, elas levantaram para ir embora. Na verdade, ela havia pedido à amiga para me dar o número dela. Ela me passou o cartão. Agradeci (como se fosse uma esmola) e continuei tocando por mais um tempo.
Como um bom boca aberta cavalheiro, deixei para entrar em contato no dia seguinte, porque era "muito tarde". (Meia-noite e quinze! Dá um desconto, eu era novo nisso.)
No dia seguinte, ela respondeu ao meu contato com uma frase, apenas: "Desculpa, eu tava bêbada". Tentei puxar assunto, mas fui ignorado.
E essa foi a única vez que recebi um número de telefone em mais de dois anos de música ao vivo.
Bem, talvez até chova por aí, mas eu uso as impermeáveis e super eficientes galochas amarelas do rock and roll.
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