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Mostrando postagens de janeiro, 2024

IX - Sugestões e Papel Higiênico

    É normal para um profissional de qualquer área receber pitacos sobre o seu trabalho, especialmente quando ele já tem uma carreira consolidada.  Quando eu comecei minha trajetória na música, não recebi muitas palavras de apoio, ou sugestões que facilitassem o meu começo.  Mas ouvi frases como "Não tem espaço para rock", "Aqui o pessoal só quer sertanejo e pagode", "Você não consegue entrar nos lugares se não tiver panelinha", que querem dizer basicamente: "DESISTA! EU NÃO AGUENTARIA TE VER TENDO SUCESSO NISSO!"   Pois bem, chupem-me.    O tempo passou, e eu descobri a outra face desse mesmo tipo de gente. Os desanimadores do começo de carreira, depois que a coisa começa a andar, tornam-se os sugestores. Aqueles que não te ajudaram no começo, mas agora querem uma parcelinha do sucesso te dizendo como fazer o que já está feito. Então, lembrei deste fato: Quando Stan Lee chegou com a primeira ideia sobre o Homem-Aranha, o seu editor achou a pior ...

VIII - "Deve Chover Mulher!"

  Existem alguns mitos quando se trata de músicos de bar. Que todo músico de bar bebe pra cacete, ou usa drogas. Que todo músico de bar é cachorro e mexe com a mulher alheia. Que todo músico de bar vive sem grana, toca por sanduíche e cerveja e, bem trovadinho, vende o corpitcho.  Adoram enquadrar a gente em clichês.    (Bom, nem todos são verdade...)   "Todo músico é safado" é um clichê que se usa bastante na hora de queimar o filme da gente. Se bem que, neste caso, o efeito pode ser contrário, uma vez que, no show business, todo marketing acaba sendo positivo.   É como quando você sai de um relacionamento e a pessoa fica falando absurdos de você. Sempre tem quem queira conferir se é verdade. (Falarei mais sobre confusões amorosas em publicações futuras. Não perca!)   Enfim, não sou um cara da noite. Salvo em raras ocasiões, encerro minha apresentação e dou o fora o mais rápido possível. Não é por mal. Dou toda minha energia na música e a bateria ac...

VII - Sobre Ser o que se É

  Algumas coisas na vida só funcionam se você tiver feeling, conexão consigo mesmo. Falo do estilo de vida que escolhi. Eu não tenho modelos a seguir. Preciso focar no meu objetivo e calcular minha rota.   Desde bem jovem eu me esforcei para ser fora dos padrões impostos. A beleza de fazer o que todo mundo faz está em ter uma ideia de onde você vai chegar. O mundo chama isso de estabilidade. Eu chamo isso de tédio.  Eu faço o que eu quero, e meu estilo de vida tem isso como base. (Para mim funcionou. Não façam isso em casa, crianças) . Eu saio tateando para ver qual bicho morde.   Por exemplo, alguns me chamam de "roqueiro careta", porque eu não bebo (Ao menos, não para ficar bêbado). Um drinkzinho na parte final do show, (um Jack & Coke, ou o supracitado runzinho com gelo e limão) ou um whisky para dormir bem quando chego em casa pilhado pela adrenalida... Isso é tudo que preciso.  Na verdade, nem preciso. Nem sei a sensação de estar bêbado.    ...

VI - Gatos e Âncoras - Parte 2

  Contratei um táxi para me buscar no aeroporto e fazer o trajeto Porto Alegre - Cachoeira o mais rápido possível. Não queria fazer os gatos passarem por mais uma espera de ônibus e uma viagem lenta para economizar alguns trocados. Como falei antes, não é barato viajar com dois gatos. Mas valeu a pena.    Minha mãe havia ido junto com o taxista a Porto Alegre me buscar, então a viagem de volta já era, também, a minha chegada. Eu estava em casa.   Antes das dez da noite já estávamos no apartamento. Siiim, aquele com poucos morcegos. Minha mãe já havia preparado caixa de areia e ração para quando eles chegassem, e organizado um pouco da minha mudança. Mas ainda havia muito a fazer.   Abri as caixas de transporte e eles saíram. Stark começou a explorar, farejar, se esfregar nas paredes e todo o procedimento de um gato macho em um novo ambiente.   Mity saiu da caixa e começou a andar em círculos, miar alto e farejar. Havia algo errado com ela. Demorei para ente...

V - Gatos e Âncoras - Parte 1

  A vida sempre coloca algo para te situar. Uma âncora, uma bússola, um eixo. Algo que dependa de você, para que você se mantenha indo em frente.    Para alguns, essa âncora é um filho, ou um amor, um familiar enfermo que precisa de cuidados, uma empresa que não pode parar, um amontoado de bens que precisam de administração.   No meu caso, minha âncora tem pêlos brancos e ronrona.   Em 2013, adotei uma gatinha branca de olhos azuis de um colega de faculdade. Chamei ela de Mity Mity (Mity, para os íntimos). Foi a primeira vez que eu tive um gato. Na minha infância, havia uma preferência por cães em casa, e um certo preconceito com os bichanos.    Mity era de pequeno porte, esguia e de aparência frágil. Parecia uma delicada princesa, até entrar no primeiro cio e arrombar a janela feito o Incrível Hulk branquelo.    Aprendi que o gato é dono da própria vida, e Mity pegou a primeira cria, justo na semana em que seria castrada.   O pai? Um ga...

IV - Retorno, Tinder e Quarentena.

 Em Março de 2019, pisei novamente nas terras charmosamente entediantes da capital do arroz. Eu, meus dois gatos, meus livros e instrumentos, e um plano (que só executei quase 3 anos depois).  Aluguei um apartamento (com bem poucos morcegos) no centro, e ali eu recomeçava a vida mais uma vez.   Eu precisava dar um tempo. Dar um tempo para o amor, para o trabalho, e ficar em silêncio, buscar o prazer da minha própria companhia, ler bastante, sentir a terra natal, enfim, me curar.   E o que eu fiz?   O que a gente sempre faz nessas situações: o contrário.   Eu tinha acabado de sair do segundo casamento de 7 anos... Eu não sabia o que fazer sem alguém do lado! Não me julguem. Haha.   Então, comecei a me enrolar em confusões amorosas das quais eu nem precisava, entrei para aplicativos de namoro cujo objetivo eu nem sabia direito. (Até então, tivera duas traír... esposas e mais nada.)    Foi uma tragédia. Eu não estava cabeludo, e muito menos ON!...

III - Sampa no Walkman.

   Quase sempre acho incoerências em filmes e livros que tratam de viagem no tempo, ainda mais quando o objetivo é alterar o futuro. Com exceção da obra clássica de H.G. Wells, A Máquina do Tempo, bem pouca coisa nesse âmbito escapa da inconsistência de roteiro.    Vou voltar um pouco ao passado, agora, mas não na pretensão de mudar algo. Até por que não quero que minha vida atual mude.   Claro, tem muita coisa que eu preferia não ter feito ou sofrido, mas a cada um cabe seu caminho. Afinal de contas, futuro e passado são subjetivos.  Temos o presente, e é isso aí.   Quero falar aqui sobre os fatos passados que são relevantes à minha trajetória musical. Afinal, tudo na vida da gente está interligado!   Em 2008, depois de várias tentativas frustradas de sobrevivência por aqui, resolvi dar o fora. Eu já estava casado na época. (Casei cedo demais, com a primeira pep... pessoa que conheci.) Sutil que sou em minhas mudanças de vida, fui logo para São ...

II - O Cabeludo Tá ON.

Eu fiz o anúncio de estréia como "Triacústico". A ideia era sermos um trio. O dono do bar me sugeriu não divulgar como trio, pois às vezes as pessoas acabam abandonando o projeto…   E, já no segundo show, ele me disse "EU AVISEI".   Lá estava eu, sozinho, com as luzes mudando minha cor, verde, roxo, amarelo, e os rostos me olhando, apreensivos, quando desligaram o som para eu começar.    Fechei os olhos e toquei "Easy".   Do show em si, lembro pouco. Mas do que senti antes, durante aquela tarde, não vou esquecer.    Pela manhã, quando os outros dois me avisaram que não iriam poder tocar, senti um pouco de raiva. Não conseguia conpreender. Para mim, aquilo era tão importante! Uma porta se abrindo, e só eu via.   Fiz um novo anúncio, só com meu nome. Respirei, almocei e decidi comprar um violão novo. No dia anterior, eu tinha me apaixonado por este violão na loja. Então, o fato de eu ter que me virar sozinho me fez acreditar...

I - A Vida Começa aos 40.

 Setembro de 2021. Era meu aniversário de 40 anos, e eu decidi ficar sozinho naquele dia. Minha família não gostou muito, mas eu não estava legal e precisava de um momento de reflexão.    Eu estava na casa nova havia 20 dias, e a adaptação estava difícil. Afinal, eu amava o apartamento antigo, de onde eu fora convidado a me retirar por receber "visitas demais".  Nada demais, afinal, era minha primeira vez solteiro depois de quase 20 anos em relacionamentos longos e sem nenhum fundamento.   No fim das contas, a gente vive como aprendeu a viver, até que aprenda um jeito novo.     E eu aprendi um jeito novo, e estava me divertindo. Mas os evangélicos recalcados e infelizes donos do imóvel não.    Eu não fazia barulho nem agito. Era o fato de eu receber várias garotas que incomodava eles, porque "os vizinhos poderiam comentar". Os vizinhos cagavam pra aquilo. Eu estava feliz e isso incomoda quem é infeliz. Então, em uma noite de segunda feir...