VI - Gatos e Âncoras - Parte 2

  Contratei um táxi para me buscar no aeroporto e fazer o trajeto Porto Alegre - Cachoeira o mais rápido possível. Não queria fazer os gatos passarem por mais uma espera de ônibus e uma viagem lenta para economizar alguns trocados. Como falei antes, não é barato viajar com dois gatos. Mas valeu a pena. 

  Minha mãe havia ido junto com o taxista a Porto Alegre me buscar, então a viagem de volta já era, também, a minha chegada. Eu estava em casa.

  Antes das dez da noite já estávamos no apartamento. Siiim, aquele com poucos morcegos. Minha mãe já havia preparado caixa de areia e ração para quando eles chegassem, e organizado um pouco da minha mudança. Mas ainda havia muito a fazer.

  Abri as caixas de transporte e eles saíram. Stark começou a explorar, farejar, se esfregar nas paredes e todo o procedimento de um gato macho em um novo ambiente.

  Mity saiu da caixa e começou a andar em círculos, miar alto e farejar. Havia algo errado com ela. Demorei para entender, muito mais tarde, que ela poderia estar surda de um dos ouvidos, ou ambos.

 Naquele momento eu não pude compreender, e até hoje me culpo um pouco por isso. Era muito para resolver dentro e fora de mim, muito para organizar, móveis para comprar, feridas para curar e laços para estabelecer e reestabelecer. Poderia ter sido mais atencioso a este fato.

  Deixei-os ali, reconhecendo o terreno, e fui visitar alguns amigos que prepararam uma janta para mim.

  Mais tarde, voltei ao apartamento. Era pequeno, mas bem dividido, porém não havia nenhum espaço externo para os gatos. Era bem no centro da cidade, no segundo andar de um pequeno prédio, e havia uma janela perigosa, da qual cada um deles teve a oportunidade de cair antes que eu conseguisse proteger. Por sorte, nenhum se machucou, mas aprenderam a evitar a janela.

 Coloquei a cama no lugar e organizei o básico para uma noite de sono. Demorou para acomodá-los. Estavam ansiosos, desconfiados, nervosos. Stark, como de costume, dormiu sobre meu braço, com o nariz perto do meu. Mity passou a noite andando de um lado a outro.

  Veio a manhã daquele dia. Era o primeiro dia da minha nova vida em minha velha cidade.

  Comprei meus móveis de manhã, levei eles para um banho no começo da tarde, e estávamos, os três,  prontos para recomeçar.

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  Um ano se passou - o meu ano sabático - e eu estava fazendo alguns bicos até que meu projeto musical emplacasse de vez. Acabei indo para um bairro longe da agitação do centro para reduzir custos, e acabamos sendo beneficiados com muito espaço para eles, que poderiam ficar livres e fazer amizades.

  A pandemia veio com tudo e, como a música ia ter que esperar, comecei minha empresa de canecas personalizadas, o que me salvou. Nada que a gente aprende na vida é por acaso.

  E foi ali, quando eu estava começando um novo caminho profissional, que eu notei que a Mity estava se recusando a comer. Troquei a ração e não adiantou. Então, ela começou a urinar em cima das minhas coisas, talvez para chamar atenção, e se isolar.

  Levei ao veterinário mais próximo, e ela ficou internada alguns dias, tomando soro e medicação. Muitos exames foram feitos, até que o diagnóstico confirmou um problema irreversivelmente sério nos rins. Ela estava sentindo dor o tempo todo. Minhas opções eram levar ela para agonizar e definhar em casa, ou acabar com o sofrimento ali mesmo.

 Lembro da última vez que olhei para ela. Seus olhos azuis apagados contrastavam ainda mais com a brancura das partes do rostinho dela que antes foram rosadas. Mesmo assim, ela olhou nos meus olhos, profundamente como sempre fazia, com olhos tão humanos, como que pedindo ajuda. Ou dizendo adeus.

  Mity não voltou para casa.

  Às vezes penso se fiz tudo o que pude. Se, com mais dinheiro, ou talvez com outro profissional, eu teria conseguido salvá-la. Mas prefiro acreditar que era a hora dela. E nossas lembranças nunca vão se apagar.

  Enterrei ela debaixo de uma árvore, em um campo. Às vezes choro pensando nela. Meu primeiro gatinho.


EM MEMÓRIA DE MITY MITY - (2013 - 2020)



  
  

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