XIII - Gatos e Âncoras - Parte 4

  Eu sempre digo que o número ideal de gatos em casa é dois. Assim, um faz companhia ao outro, e se estabelece um certo tipo de equilíbrio.


  Mas a vida não é só sobre equilíbrio. É sobre lidar com o caos, é sobre situações que saem do nosso controle, é sobre aprender que somos criaturas frágeis e meio cegas em um mundo instável e cheio de neblina. 


  Muito raramente vivemos o que é ideal.


  Em Outubro de 2022, quando o Stark e o Rex estavam em perfeita harmonia (o legítimo Yin Yang felino), eu vi a postagem anunciando aquele peludo malhado, preto e branco, de longos bigodes e olhos amarelos grandes e expressivos para adoção.


 Por ver que era um gato adulto (portanto mais difícil de ser adotado), simplesmente me habilitei, sem pensar. 


  A situação me comoveu: ele estava jogado na beira da estrada, dormindo na sarjeta, e evidentemente era um gato de casa, abandonado. Entrei em contato e vieram me trazer ele imediatamente.


  Ele chegou na minha casa e a sua primeira interação comigo foi ficar em pé sobre as duas patas traseiras, e encaixar a cabecinha na minha mão.


  Ele estava no pátio reconhecendo o território, e eu toquei Paranoid na guitarra, e por algum motivo ele veio correndo. Daí dei o nome de Ozzy.


  Então, claro, tivemos nossas dificuldades de socialização com os outros dois. Obviamente um terceiro gato tirou o equilíbrio do meu Yin Yang felino.


Rex ainda não havia sido castrado, então era o conflito de dois machos "inteiros". (Era bem cômico ver o Rex, daquele tamanhico dele, todo arrepiado, pulando de lado igual uma britadeira e fazendo "Uóóó...!")

 E tinha o estresse por causa da comida. Por ser um gato que passou fome, ele sempre comia toda a comida disponível, chegando a ficar com a barriga dura! E, é claro, limpava todos os pratinhos, e isso gerou um incômodo nos outros caras.


  Finalmente, consegui apoio para a castração, e aproveitei para castrar o Rex junto. E logo estavam os três dormindo juntos. 


  Na minha cama. Eu que lute. 


  Mas ele era um gato doentinho. Sempre um problema. Nariz escorrendo, alergias, um cheiro ruim na boca, gengivite... Ele tinha um bafinho de carniça que fizemos de tudo para tentar resolver, tadinho.


 Corri muitas vezes aos veterinários com ele. Por fim, estávamos tratando sintomas, e o problema real veio a se manifestar e levou ele embora. Ele definhou em menos de uma semana. Era 13 de Dezembro de 2023 quando ele partiu.


  Então entendi. Largaram ele na beira da estrada porque ele estava doente, e não quiseram tratar.


  O ideal seria ter pedido ajuda da comunidade com o tratamento enquanto havia tempo, ou ter colocado para adoção informando o problema, ao invés de largá-lo para morrer na beira da estrada.


  Mas como eu falei no começo, muito raramente vivemos o ideal. E cada um tem um coração, e cada um sabe o que consegue carregar na consciência ao deitar a cabeça no travesseiro.


  Chorei enquanto o enterrava debaixo de uma goiabeira nos fundos da clínica onde ele deu o último suspiro. Ele gostava de ver os sabiás de manhã na goiabeira do vizinho.


  Muitos diziam que ele era a minha cara. Que era para ser meu. E talvez eu tenha sido escolhido para tornar os últimos dias dele menos sofridos.


  Vou sentir tua falta, carnicinha. Foi uma honra.


 EM MEMÓRIA DE OZZY. ?/? - 12/2023.


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