XV - Pastor Fê e a Igreja Invisível

  Lembram de um programa de televisão nos anos 90 que tinha um quadro chamado "Teu Passado Te Condena", onde eles pegavam aquela parte cômica da vida de um famoso, e levavam a público?


  Bem, não sou uma celebridade, mas fiz este blog para quem quer conhecer minha história, então, vou fazer mais ou menos isso.


  Esses dias, em uma loja, encontrei um... ESPERA! Antes de contar essa historinha, vou dar umas informações necessárias:


  Quem me conhece, sabe que eu não gosto de religião.


 Veja bem, não estou falando de intolerância religiosa, que seria desrespeitar uma pessoa por ela ser de uma ou outra religião. Simplesmente não acredito em nenhuma delas, mas possuo inteligência o suficiente para entender que, quem acredita, tem suas razões para acreditar, e que posso estar errado.


  No fim das contas, tudo pode ser: o intolerante deus com letra maiúscula, o zumbi messias, a galera que fala com os fantasmas, as velas acesas para miniaturas, os 144 mil lambedores de saco de pastor, aquelas paradas com pipoca e 51, o santo chefão italiano com seus anéis de ouro, o culto a Cthulhu, os OVNIs e a assembléia Jedi... Tem fé pra todos os gostos. Eu não professo nenhuma delas.


(Pode ser que o maluco seja eu, e tá tudo bem. Pode ser você também.)


  "Ah, então tu é ateu!" 


  Não. Eu simplesmente não me importo se existe um deus ou um inferno com boca aberta me esperando. Antes, procuro fazer o certo, fazer aos outros o que eu quero que façam para mim, não por medo de uma punição, mas porque é disso que a raça humana depende para subsistir em paz, e é a unica coisa que o tal Jesus falou e ninguém entendeu. (Ou fazem de conta que não entenderam.)


  E tudo que se faz de bom e de coração puro, de alguma forma, traz coisas boas. Nisso eu acredito.


  (E em quando minha mão coça. Eu sempre ganho dinheiro quando minha mão coça. Invejosos dirão que é mentira.)


  Agooora, sim. Voltemos à historinha.


  Esses dias, em uma loja, encontrei um casal que há muitos anos não via. Estão morando fora daqui. Me cumprimentaram, mas percebi que não me reconheceram.


  Perguntei "não lembram de mim, né?"


  O marido, confuso, falou, estalando os dedos: "Siim, tu é o... Ex marido da...", mas os nomes não vinham.


 A esposa me olhou. Eu disse "sou o Felipe", e a deixei fazer as associações mentais.


 E ela respondeu "IRMÃO FELIPE! MAS TU ERA UM PALITINHO!"


   As palavras "irmão" e "palitinho" desbloquearam uma parte da minha vida que estava em uma área cinzenta da memória.


  Sim, antes de ir embora para São Paulo, eu era envolvido com uma religião. (E sim, eu tinha precisamente 48 quilos, com 1,75 de altura. Era um bicho-pau no jardim de deus.)


  Lembram que eu falei que antes de ir embora eu tentei várias formas de sobrevivência?


  Meu primeiro emprego foi de garçom no restaurante de um parente. Nos primeiros anos, estava bacana, mas quando o dono do restaurante começou a me fazer assinar um livro ponto como se eu trabalhasse 5 horas a menos do que eu de fato trabalhava (e me pagava como tal), eu percebi que estava sendo explorado. Então, comecei a pensar em um jeito de saltar fora daquilo.


  Nesta época, eu tinha recém começado a namorar essa mina crente que me levou para uma seita igreja.


  (Ela é crente. Vive os princípios de Jesus. O que pode dar errado, não é verdade? Confia.)


 Essa seita igreja era liderada por um ex político carismático, com um sério complexo de Messias. Colocava as coisas de uma forma inteligente e lógica, e eu acabei achando interessante, pois nunca tinha achado uma religião que me soasse coerente (e, pela primeira vez, admiravam meu talento musical, ou apenas o viam como algo lucrativo), então, quando o tal messias me perguntou se eu teria fé para largar o emprego e viver para "a obra", eu o fiz. Na época, pareceu um grande passo de fé, mas eu estava era me livrando de algo cujo tempo já tinha passado.


  Aí eu acabei casando com essa mina, pois a pregação ali era que, se transou, tem que casar. 


 (Ouviram crianças? Nada de sexo sem casamento.)


  A princípio, meu trabalho era compôr músicas em cima de letras que ele tipo psicografava ou algo assim, e eu ia fazendo aquilo como eu podia, e outras coisas como dar estudos bíblicos, aconselhamentos a jovens e aulas de violão gratuitas.


  Só que prendiam a gente todos os dias das 7 às 23 com atividades, pregações, uma lavagem cerebral insistente e diária.


 Os meses foram passando. Eu ouvia minha voz, e não era mais minha voz. Era um jeito novo de falar. Me soava falso, o jeito que eu falava. 


  E eu comecei a perceber que, entre as pessoas que trabalhavam ali, internas, você não podia sequer questionar algo que aquele homem falasse. Você era obrigado a engolir tudo. E se não concordasse, eram "os demônios em você" que não concordavam.


  Aquilo era estranho, mas eu acreditava de verdade estar fazendo algo bom, "salvando" pessoas. Então me dedicava à minha parte com amor.


  Cada um que trabalhava ali ganhava, semanalmente, um envelopinho grampeado, com uns trocados para comer e um versículo bíblico escrito por aquele homem. (Alguns se comportavam como se fosse o autógrafo de um superstar, ou uma mensagem do próprio todo-poderoso. Eu só me preocupava se a grana ia dar.)


  Um dia, ele me chamou no seu sagrado escritório e disse que "Deus" mandou eu entregar meu apartamento alugado, pois a igreja me forneceria um lugar para morar. A partir daí, fiquei rolando por porões sem sol, casas dos outros sem privacidade, casas comunitárias de missionários. Uma vez, fui parar no porão do cine Astral. Um dia, acordei com o prédio sendo demolido.


  Até que me mandaram para Brasília em missão. Lá, longe, sem a lavagem cerebral diária, consegui pensar e entender o que estava rolando.


  Quando voltei, um ano e meio depois, eu conseguia enxergar com mais clareza. Vivíamos uma vida entorpecida, na qual éramos obrigados a engolir sem questionar tudo que aquele homem falava. E, mais do que nunca, aquela gente o adorava como um deus. E ele parecia estar adorando aquilo.


  Então, comecei a fazer e falar as coisas como eu acreditava ser certo. E comecei, lentamente, a ser destituído de algumas funções, especialmente as ligadas à pregação.


 E, mais uma vez, eu comecei a preparar as coisas para dar o fora.


 E foi assim que, quando apareceu uma oportunidade de ir para São Paulo, eu abracei. E foi lá que minha vida adulta realmente começou, por minha conta, trilhando meu próprio caminho.


  Não me arrependo de ter saído daquela religião. É lamentável o que eles fazem com a cabeça das pessoas! 

 Na verdade, muito pouco me arrependo do que faço, porque sempre sigo meu coração. A verdade é que, enquanto fazia aquilo, fazia com amor, assim como muitas pessoas ao redor do mundo estão nas religiões por amor, enquanto os líderes só as manipulam e acumulam poder e dinheiro.


  No dia em que as religiões servirem para ajudar as causas que precisam de atenção, alimentar e ajudar os necessitados, sem esses gritedos e manipulações sem sentido, sem essas orações ridículas por causas próprias e velas acesas para o mal dos outros, talvez eu volte a acreditar em alguma delas. 


  Quanto às pessoas de lá, algumas me tratam como um velho amigo, outras atravessam a rua como se eu fosse um leproso. Ou, como eles falam, um "desviado".


  Mas não me sinto assim. Me sinto como alguém que via as coisas de um jeito e agora vê de outro. 


  E tudo bem.









  


  


  

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