XIV - Fê Só Para Baixinhos

  Quando a pandemia estava quase no fim, e os  serviços básicos voltaram a funcionar, a vida noturna estava longe de reestabelecer a fonte de renda de quem dela dependia.


  Então, a gente tinha que usar de criatividade e sorte.


  Antes de vir embora de Sampa, eu havia adquirido um equipamento para fazer canecas personalizadas, e durante a pandemia isso me salvou. Mas agora, eu precisava de algo mais, e já estava farto de estar preso em casa. (E quem não estava?)


   Foi nessa época que eu recebi a ligação de uma amiga falando de uma vaga para trabalhar com música em uma escola. E eu fiquei animado. Entrei em contato com a diretora, e lá fui eu fazer a entrevista.


  Deu certo. A partir da segunda-feira, eu faria um trabalho que era basicamente cantar para crianças de até uns 5 anos, se não me engano, separadas em turmas por idade.


  Bom, eu não tenho muita habilidade com crianças. Nunca quis ter filhos. Na verdade, é algo curioso: Eu simplesmente sempre SOUBE que não teria filhos. (Até agora, tá tudo indo bem!)


  Mas a Borboleta do Caos bateu as asas em Pequim, e aqui estava eu, diante de umas oito crianças de 4 anos, cantando "Borboletinha Tá Na Cozinha". Eu simplesmente não entendia como as crianças podiam estar gostando daquilo.


  Mas eu terminava a musiquinha e elas começavam a gritar "DE NOVO! MAIS RÁPIDO!" Platéia boa.


  Essa foi a parte mais fácil. Eu não sabia que eles tinham bebês, também...


  Em seguida, me levaram a uma sala onde haviam dois bebês. Um estava em um carrinho, ou andador (não manjo dessas coisas). O outro estava no colo da responsável pela sala, quase dormindo. 


  E eu estava quase chorando, mas não era de emoção. Realmente não fazia ideia do que fazer. Mas me confiaram aquele trabalho, e achei digno tentar.


  Aí eu comecei a dedilhar o violão e um dos bebês me olhou. Claro que nessas horas a gente se emociona. Aí eu cantei algo como Somewhere Over The Rainbow


  Bebês não sabem nem português ainda, imaginei que não fossem ligar por eu cantar em inglês.


  O outro bebê dormiu. Pensei "bem, pelo menos ajudei em alguma coisa."


  Nisso, deu a hora do intervalo do almoço. Às 14:00 eu voltei suspirando "E agora, o quê?"


  Me levaram à sala dos maiores, onde tinha um menino que me disseram ser "difícil". (Claro que não usaram essa palavra, mas eu lembro do menino.)


  Me apresentei e comecei a me preparar. Tinha o menino e duas meninas. Quando peguei o violão ele falou "Não goooooosto de música! Odeio música!" 


  E eu pensei em uma resposta bem boa para dar pra ele, mas acho que minha carreira só para baixinhos iria pro brejo se eu desse.


  Comecei a tocar e ele começou a gritar tapando os ouvidos. Eu olhei para a professora. Ela fez sinal para eu continuar. O guri começou a chorar (sei lá, parecia choro). A única coisa que não me permitiu entrar em pânico foi me imaginar contando essa história depois. (Cês acham engraçado, né? Não foi com vocês...)


  Aí parei de tocar. Imediatamente, o diabo do guri  pegou um lápis verde e disse "vou desenhar um dinossauro!" 


 Me levaram para outra turminha. A mesma da manhã (DE NOVO! MAIS RÁPIDO!)


 Depois da borboletinha fazer chocolate para a madrinha em seis velocidades diferentes, fui pra casa.


  Servi duas doses de whisky com gelo e ouvi um álbum inteiro da Galinha Pintadinha. 


  A mesma rotina se repetiu duas vezes por semana, durante um mês.


 Não me chamaram para o próximo mês.


 Sabiam que eu não sobreviveria.





  

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