XVI - Malas

  Era um começo de noite de sábado quente e agradável, e eu estava montando meu equipamento para tocar, animado, em um clima especialmente bom. Já haviam algumas pessoas nas mesas do pub. 


  Dois caras de mesas diferentes, que entendi serem músicos, começaram a interagir, falando mal de outro músico da cidade.


  Mala 1: "Ontem eu vi o Fulano tocando em tal lugar. Tu vê, o Fulano, coitado..."


  Mala 2: "Pois é. O cara tocava em uma banda famosa... Conhece, cabeludo, o Fulano?"


  Eu fingi me enrolar com os cabos. Eles continuaram.

 
  Mala 2: "O cara tocava em uma banda famosa, agora tá aí, tocando em bar. Tocando por prato de comida."


  Mala 1: "Pois é, o que é a decadência da pessoa... Tá aí tocando em barzinho."


  Eu não sei esconder quando tô puto. Sou transparente (e já engoli sapo demais na vida).


  Aí o Mala 2 falou: "Ó, o cabeludo não gostou."


  Eu falei que não tava entendendo o que eles queriam dizer. Eu valorizo meu trabalho, e faço com amor. Me preparei para fazer justamente o que faço, e não estou fazendo apenas porque "nada mais deu certo".


 E não falei mais nada. Houve trinta segundos de silêncio.


  Mala 1: "É que ele tocava numa banda, fora de Cachoeira, aparecia na TV, agora tá aí. Tu sabe que barzinho é quebra galho!"


  Pensei "Mas e daí? Vai saber se o Fulano não ganha mais tocando sozinho em sua própria cidade?", mas resolvi não gastar minha energia discutindo com aqueles caras.


  O problema é que as pessoas que não fazem nada têm opinião demais sobre os que tentam fazer algo.


  E os Malas 1 e 2, como que para mostrar quem eram na fila do pão, começaram a falar do que já tinham feito no passado, que já tocaram com esse ou aquele ex-famoso decadente, como se fossem grande bosta, como se isso lhes conferisse o direito de dizer o que é bom ou ruim para os outros.


  No entanto, estavam ali, com as bundas sentadas em mesas de bar em um sábado à noite, destilando o amargor da inveja, enquanto, provavelmente, o Fulano que eles tesoureavam com tanto vigor estaria em algum pub, fazendo seu trabalho com alegria, ganhando sua grana e se divertindo com isso.


  Vocês entendem o que eu quero dizer?


 Eles sabiam que eu estava ali para tocar. Mesmo assim, escolheram falar as palavras que falaram. A pessoa tem que levar uma vida de merda para agir assim. Senti pena deles. 


 Mala 2 foi embora. Mala 1 ficou ali, esperando eu começar a tocar para, provavelmente, julgar se valia um prato de comida.


  Eu esperei ele ir embora para começar.


  Logo depois, chegou um casal querido que admira meu trabalho. Me abraçaram, e minha energia voltou.


  Enfim, não importa o que você faça, o quão bem faça e o quanto você esteja feliz com a vida que leva. Sempre haverão os infelizes para falar palavras para tentar te deixar triste. Não foi a primeira vez, nem será a última.


  É por isso que evito essas pessoas que chegam para "conversar casualmente". Sabe esses? Que planejam previamente as palavras de desânimo que vão te falar, e fazem isso tentando parecer casuais? Coisa nojenta.


  O jeito é dar risada deles, olhar para quem te admira, dar ouvido às palavras boas, e seguir fazendo. Não temos tempo a perder!


 No final da noite, ganhei um hamburguer. Tava top.



 

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