XXI - Um Dia de um Músico de Bar
O despertador me acordou de um sonho intrigante, então desativei-o e tentei voltar a dormir para "assistir" o final. Meus olhos estavam ardendo de sono. Stark começou a arranhar o colchão. Ele aprendeu essa técnica para me fazer levantar. Bom dia, seu merdinha.
Sentei na cama. Não quis olhar o celular. Eu sabia as horas, e isso era tudo que eu precisava.
Tentei lembrar do que tinha feito na noite anterior. Não tinha bebido, mas comi muito. O que era mesmo? Pizza?
Levantei. Rex deu os gritinhos dele. Ele não mia, aquele esquisito. Abri a porta da frente e ele vazou como uma flecha. O sol doeu em meus olhos. Fechei de novo.
Stark já esperava ao lado do pratinho dele, que estava pela metade. Completei a ração. Gato dramático.
Meu banheiro é do lado de fora. Isso me força a ter contato com o mundo exterior mais cedo do que eu gostaria. O sol estava ali nos fundos também. E o Freddy, esperando a ração dele, que eu já estava levando comigo.
Me olhei no espelho. Me achei bonito. Sempre me acho bonito.
Coloquei água para esquentar, e dois montinhos de café no coador. Eu gosto forte.
Sentei para esperar e olhei o celular. Nada de novo no front. Eram 8:46.
Tomei café puro. Comi só duas bananas, para aguentar meus exercícios matinais e organizar a casa. Fiz isso e tomei banho. Lá se foi a manhã.
Sempre vou almoçar cedo para não pegar restaurante lotado. Tinha a la minuta. Lembrei que era sexta-feira.
Estava ensolarado, então sentei na praça da Matriz para digerir o almoço. Tirei uma foto do Château D'eau e postei. Ninguém é de ferro.
Voltei pra casa meia hora depois. Stark tinha ficado na rua tomando sol.
Eu tinha trabalho a fazer. Nem só de música vive o músico, então trabalho com personalizados. Fiz um layout, mas o cliente demorou para aprovar. Então ficou para segunda-feira. (Sou bem vagabundo no meu segundo emprego.)
O que fazer agora?
Peguei o violão e revisei algumas músicas da lista "inseguras" (aquelas que eu toco tão pouco que fico com medo de ter esquecido).
Repostei os stories dos shows da semana. Fiquei pensando em como as pessoas vêem meu trabalho. Se estou fazendo a divulgação do jeito certo. São muitas visualizações e poucas curtidas (Mas, geralmente, quem curte acaba aparecendo, e isso é legal).
Sobrou tarde. Fui jogar Resident VII. Morri repetidas vezes no segundo boss. Larguei. Sou péssimo.
Os gatos estavam tomando sol em cantos diferentes.
Fiz café e conversei um pouco com alguém online. O café esfriou enquanto eu me distraía tirando fotos dos gatos ao sol.
Eram 17:15. Eu precisava lavar o cabelo, mas estava cedo. Peguei o Fante para ler, mas não estou evoluindo nele. Pensei em dar um tempo para os mimimis do grande Bandini e pegar algo menos dramático. Sei lá, tanto faz. Este ano, estou especialmente atrasado com a leitura. Minha média são 18 livros por ano. É abril e estou no segundo.
Foda-se a média, não sei quanto tempo me resta nessa porra.
Fiquei fazendo qualquer coisa inútil e me atrasei. Tomei banho e me arrumei para ir tocar. Resolvi ir todo de preto.
Me faltava empolgação. Coloquei uma dose de Jim Beam extra aged (com gelo pra quebrar o amargor) e fui bebendo enquanto secava o cabelo. O secador e o bourbon aqueceram meu ânimo.
Chamei o Uber às 20:30. Cheguei no pub, e estava lotado naquela noite quente. Muita gente diferente, o que é muito bom sinal.
Me senti observado enquanto montava meu equipamento. Olhei ao redor, e estava certo.
Dei uns ois e finalizei a preparação. Era cedo para começar, e tarde para comer. Afinei o Mr. Jones. Seria a última apresentação com ele. (Fora promovido a violão de "rolê".)
Coloquei o holofote na minha direção e me senti iluminado. (Posteriormente, vi um vídeo e só tinha iluminado metade de uma perna. Ok. Um dia poderei contratar um técnico para essas coisas.)
Olhei para os presentes e pensei no que tocar. (Quando não sei o que tocar, toco Quase Sem Querer. Todo mundo gosta dessa...)
Escolhi "À Sua Maneira". Deu certo. Eu sempre falo que o agito de uma noite é 50% o músico e 50% o público. Naquela noite, o cálculo bateu exato.
Estava calor e eu estava tocando no ambiente externo. Me senti muito bem com a reação do público. Comecei a tocar os clássicos de sempre e arrisquei uma ou duas coisas novas.
Uma menina sentou sozinha na mesa à minha frente e cantava empolgadamente todas as músicas. Isso me empolgou também.
Uma hora e meia depois, todo mundo começou a ir embora. Ia ter um evento em algum lugar pseudochique da nossa Caipirópolis. Mas eu já estava satisfeito com a participação do público naquela noite.
A tiete solitária já tinha partido de Uber. Ficaram umas duas mesas com casais (daqueles que ficam cada um em seu celular e não estão nem aí um para o outro). Uma das moças estava me filmando cantar "Wicked Game". Fiquei feliz por ainda estar entretendo alguém.
Chegou mais gente, quando eu estava prestes a parar. Começaram a pedir música.
Eu ainda estava com a voz boa, o universo estava em ordem, não tinha nenhuma nuvem para ocultar as estrelas, eu não tinha compromisso e, em algum lugar do mundo, budistas bebiam chá, rios geravam energia elétrica, corujas caçavam ratinhos, e alguém se dava bem no jogo de alguma forma. Por que parar?
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