XVII - Gatos & Âncoras - Parte 5
Estou de volta, depois de alguns meses sem escrever. Não foi falta de inspiração, mas a atividade está consumindo meu tempo! Tenho uma série de textos meio escritos para publicar, e este é um deles, que estava esperando para ser lido por você, caro leitor, que perde seu tempo apreciando meu trabalho.
Pois vamos lá. No final do ano, apareceu este gato rondando a minha casa. Um gato feio, velho, que parecia ter saído de um livro do Stephen King. Só podia ser laranja. Gatos laranja têm fama de malvadões.
Mesmo com poucos dentes na boca, consegue dar belas mordidas. E eu nunca tinha sentido um soco de gato. Pois bem, ele dá socos.
Ele chegou tocando o terror aqui. Batendo nos outros dois e gerando o caos. Uma curiosidade: ele chegou exatamente no dia em que o Ozzy morreu, como contei no texto anterior desta série. E desempenhou o papel de emissário do caos melhor ainda...
A princípio, tentei anunciar para adoção. Mas não adianta, se o Universo te joga um limão, não jogue nos outros. Faça uma caipira. Eu acredito que os gatos escolhem a gente. (Seja para nos adotar, morder, ou, no caso, dar porrada, eles escolhem.)
Ele vinha sempre à noite. Aparecia do nada e atacava os outros enquanto estavam dormindo. Chamei ele de Freddy Krueger, por motivos óbvios.
Toda vez que tocava nele, me mordia. Então percebi um chumbinho preso às suas costas. (Até hoje desejo uma morte lenta e dolorosa ao filho de uma puta que deu o tiro nele.)
Às vezes, um animal "difícil" tem seus motivos para sê-lo. Assim como as pessoas.
Levei ele para castrar, e tratei a ferida do chumbinho, preso firmemente às suas costas. Continuei alimentando e tratando dele, e ele acabou se acomodando no meu pátio. Ele tomou conta do espaço, e os outros não saíram mais de casa, por medo.
Ele é um gato velho, violento e extremamente astuto. Ele aproveitava cada oportunidade para entrar em casa e bater nos outros. Não se contentava com seu pote de ração e água. Precisava dominar todos.
Às vezes eu jogava água nele, para evitar um ataque eminente. No começo, ele sumia por um tempo. Depois, só se afastava e ficava me observando, até a situação acalmar, e voltava.
Nos dias quentes, ele entrava na cozinha porque é mais fresco, e impedia os outros de comer. Eu tentava colocar ele pra fora, mas ele não tinha o mínimo medo. Até hoje não tem. Simplesmente faz o que quer.
Pra falar a verdade, eu que tenho um pouco de medo do jeito que ele me olha com aqueles olhos verdes enormes... Dá arrepios. Parece que sabe onde morder para matar.
Já estou com três ou quatro cicatrizes das mordidas dele, uma foi separando a briga (essa ficou feia!) e as outras, dando carinho. Ele cansa do carinho e ataca. E sabe atacar, mesmo tendo só metade dos dentes!
MAS O PONTO ONDE EU QUERO CHEGAR É:
Eu teria todos os argumentos para dizer "não posso ficar com ele. Ele bate nos outros. Não se adaptou. Precisa de um lar".
Mas não vou fazer isso. Ele teve a cota dele de rua e de mudanças. Deve ter sofrido, disputado comida e espaço.
Está sendo difícil, mas o que é fácil na vida? Toda mudança é difícil. Ter um animal, ter um filho, casar, começar em um emprego novo, tudo na vida demanda um tanto de paciência e flexibilidade.
Não vou jogar o animal numa curva porque os outros não se adaptam com ele. Eles que aprendam a conviver!
Se o animal está no teu caminho, existe um motivo pra isso. Terceirizar o serviço que o Universo te trouxe só vai trazer mais sofrimento para o animal, e, vai saber que consequências para você...
Eu não queria mais um, embora não tivesse dessa cor. Mas cá estamos. E até que está sendo legal, essa nossa relação de compreensão, antissépticos e band-aids. (Acreditem, não é nem de longe minha pior relação...)
Tem uma coisa em adotar um animal velho de rua: eles já vêm quebrados, sofridos, e a gente inevitavelmente se apega, mesmo sabendo que nosso tempo junto é efêmero. Como foi com o Ozzy.
Fazem uns seis meses que ele está aqui. A coisa melhorou bastante nos últimos dias. Ele está dormindo no sofá, agora. E está mais humilde com relação aos outros. (Ainda me morde, mas aprendi a esquivar.)
No fim, ele é como eu.
Um sobrevivente.
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