IX - Sugestões e Papel Higiênico

    É normal para um profissional de qualquer área receber pitacos sobre o seu trabalho, especialmente quando ele já tem uma carreira consolidada.


 Quando eu comecei minha trajetória na música, não recebi muitas palavras de apoio, ou sugestões que facilitassem o meu começo.


 Mas ouvi frases como "Não tem espaço para rock", "Aqui o pessoal só quer sertanejo e pagode", "Você não consegue entrar nos lugares se não tiver panelinha", que querem dizer basicamente: "DESISTA! EU NÃO AGUENTARIA TE VER TENDO SUCESSO NISSO!"


  Pois bem, chupem-me. 


  O tempo passou, e eu descobri a outra face desse mesmo tipo de gente. Os desanimadores do começo de carreira, depois que a coisa começa a andar, tornam-se os sugestores. Aqueles que não te ajudaram no começo, mas agora querem uma parcelinha do sucesso te dizendo como fazer o que já está feito.


Então, lembrei deste fato:


Quando Stan Lee chegou com a primeira ideia sobre o Homem-Aranha, o seu editor achou a pior ideia que ele já teve!


  Veja bem... Levava "aranha" no nome, e as pessoas odeiam aranhas. E se trataria de um adolescente enfrentando problemas comuns enquanto combate o crime. Segundo o editor, "super heróis não teriam problemas comuns" e adolescentes... bem... são adolescentes.  


  Então o personagem não foi aprovado.


  Mesmo assim, Stan Lee o publicou em uma revista praticamente falida, e o número de vendas, por si só, levou o personagem ao caminho de se tornar o super herói mais popular de todos os tempos.


  Sobre isso, Stan Lee afirmou:


"Se você tem uma ideia que julga genuinamente boa, não deixe nenhum idiota fazer você desistir dela. Se existe algo que você acha bom, que você queira fazer, que signifique algo para você, tente fazer isso, porque eu acho que você só pode fazer seu melhor trabalho se estiver fazendo o que você quer, do jeito que você acha que deve ser feito."


  Agora, voltemos à minha vida (que é bem mais interessante do que a do Peter Parker).


  No ano passado, um cara descobriu meu trabalho. Um senhorzinho. Ele logo se identificou com o estilo musical, e começou a fazer alguns pedidos. Toquei o que eu sabia e anotei o restante. Afinal, sempre aceito dicas de repertório (quando a pessoa se dá ao trabalho de compreender minha proposta). Ao final do show, agradeceu e elogiou.


  Algumas semanas depois, ele apareceu novamente. Desta vez, toquei canções que ele havia pedido na outra ocasião, mas eu não sabia. Aprendi durante aquelas semanas e toquei, pois eram boas sugestões. Mais uma vez, ele ficou grato e surpreso.


  Então, ele apareceu uma terceira vez. E comecei a notar um padrão comportamental: Antes de eu terminar uma música, ele já fazia outro pedido, gradativamente mais difícil.


  Ele não estava curtindo meu som. Estava me testando!

 

   Então, comecei a tentar desviar dos pedidos dele. Às vezes, até mesmo músicas que eu poderia ter executado, eu dizia não saber. E via o sorriso dele, como que dizendo "te peguei"! O prazer de levar o mico de circo ao limite. Uma atitude extremamente nojenta, só pelo prazer de sentir poder, como se o artista estivesse ali para fazer graça, para ser testado, como um bobo da corte, como um idiota.


  Nosso trabalho é arte! É entreter, encantar, gerar sentimentos, gerar alegria, e não servir de hamster na roda para velhos bebuns fartos da vida que não conseguem muita coisa além de exercer poder sobre qualquer criatura que se submeta a eles.


  Foi então que aconteceu - porque todo homem e toda situação tem seu limite.


 Não vendo mais resultado no seu jogo doentio, o velhote, vermelho de álcool, mandou a deliciosa frase:


 - BOATE AZUL! TOCA BOATE AZUL!


  O que relatarei aqui é verdade, acreditem ou não.


  Eu estava exausto. Já tinha tocado por quase duas horas, fazendo o possível para agradar aquele saco sem fundo existencial. Respirei fundo e falei:


 - Boate Azul tem bastante gente que toca ali fora. Pode ir a qualquer lugar, inclusive na zona, e você ouve essas coisas. Meu trabalho é diferenciado, e você me acompanha e sabe disso. Então, vamos respeitar a proposta.


  Alguns riram, bateram palmas, outros nem perceberam, mas ele fechou a cara. Não é acostumado a ser desobedecido, decerto. (Ou é daqueles filhos únicos que nunca ouviram um não.)


  Quanto a mim, não aceitei mais nenhum pedido naquela noite, e me tornei mais contido quanto a isso.


 Não foi tocando Baitaca que conquistei meu espaço - o espaço que não existia. O espaço que ninguém queria. Eu fiz o que ninguém teve coragem de fazer e, digam o que quiser, eu abri novamente o espaço que havia sido selado pelo concreto da música imbecilizada atual.


Quer me dar conselhos e sugestões sobre como fazer meu trabalho, agora que ele está em pleno funcionamento? Ok. Me pague o valor de um show, e eu fico duas horas e meia ouvindo e anotando todos seus conselhos e sugestões.


Agora, se vou seguí-los ou limpar o rabo com eles, é outra história.


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