V - Gatos e Âncoras - Parte 1

  A vida sempre coloca algo para te situar. Uma âncora, uma bússola, um eixo. Algo que dependa de você, para que você se mantenha indo em frente. 


  Para alguns, essa âncora é um filho, ou um amor, um familiar enfermo que precisa de cuidados, uma empresa que não pode parar, um amontoado de bens que precisam de administração.


  No meu caso, minha âncora tem pêlos brancos e ronrona.


  Em 2013, adotei uma gatinha branca de olhos azuis de um colega de faculdade. Chamei ela de Mity Mity (Mity, para os íntimos). Foi a primeira vez que eu tive um gato. Na minha infância, havia uma preferência por cães em casa, e um certo preconceito com os bichanos. 


  Mity era de pequeno porte, esguia e de aparência frágil. Parecia uma delicada princesa, até entrar no primeiro cio e arrombar a janela feito o Incrível Hulk branquelo. 


  Aprendi que o gato é dono da própria vida, e Mity pegou a primeira cria, justo na semana em que seria castrada.


  O pai? Um gato cinza medonho com a cabeça que parecia uma arraia, que miava grosso que dava medo. Parecia um uivo. Eu só o vi de longe. Me lembrava o Churchie do Cemitério Maldito. 


  Um dia, cheguei do trabalho e Mity miava desesperada na porta. Me fez segui-la até o quarto e subiu na cama. Foi o tempo de eu colocar uma toalha debaixo dela, e o primeiro bumbunzinho branco ensanguentado brotou.


  Eu havia lido que, quando um gatinho nasce assim, de costas, ele pode morrer sufocado. Então, tomei coragem e puxei ele suavemente. Senti que salvei sua vida. Mal sabia que depois ele salvaria a minha.


  A ninhada foram três, ao todo. Um casal cinza lindo e enorme (puxaram ao Medonho), e o branco, que já no parto decidiu ser o meu gato. 


  Na época, eu estava lendo Game of Thrones e ainda curtia o agora degradado MCU. Então achei que o nome Stark serviria aos dois propósitos.


  Anos passaram, e me vi nos dias mais tristes da minha vida: começo de 2019, pouco antes de eu voltar pra Cachoeira. Eu amava São Paulo, e vir embora me esmagava o coração. Mas eu não podia ficar lá. Nem sempre a gente tem força pra lutar sozinho.


 Já tínhamos feito o divórcio, onde o que me restou, além de algumas bugigangas aleatórias, foram a Mity e o Stark.


 É incrível como as pessoas podem ser egoístas quando você é uma pessoa que está frágil e sem forças para discutir...


  Ela foi embora para o RJ com o caminhão lotado, e eu fiquei para resolver todo o resto. Entregar apartamento e tudo mais (Na época eu era bem mais otário do que sou hoje). Já havia despachado minha mudança para cá (basicamente meus livros e as coisas mais velhas da casa), para um apartamento que aluguei por telefone e nem conhecia (sim, aquele com poucos morcegos).


  Ficamos eu, um colchão inflável, meu ukulele e os dois gatos. Eu emagreci 8 quilos nesses dias. Como falei, os 20 dias mais tristes da minha vida.


  A cada dia, eu fazia um passeio diferente, pelos lugares que amava e costumava visitar sozinho. A cada dia, me despedia de um pedacinho dos meus onze anos na cidade cinzenta.


  Quando voltava para o apartamento vazio, lá estavam os dois, me olhando sem compreender, ou talvez compreendendo melhor do que eu. Mity andava de um lado pro outro, miava baixinho e me olhava fundo nos olhos, como que perguntando o que estava para acontecer. Eu só dizia, como se eles entendessem, que ia ficar tudo bem.


 Mas, no momento, não estava tudo bem  Você ter a sua realidade inesperadamente bagunçada e ter que encarar isso por vinte dias, não é qualquer estômago que consegue digerir. 


  Mas eu tinha minha âncora. Eu não podia ser fraco. Precisaria viajar 1.300 km com eles, e situá-los na nova realidade. No momento, minha tristeza era o menor problema.


  Viajar com dois gatos não é barato e nem fácil. Comprei caixas de transporte específicas e paguei uma nota para fazer a documentação dos dois. Eles seriam despachados no bagageiro do avião. Se fosse um só, eu poderia levar comigo na cabine.


  Tudo que eu pensava era em como eles sairiam de lá, no final da viagem. Se estavariam muito assustados, se sofreriam sequelas, se ainda aguentariam a viagem de Porto Alegre até Cachoeira e, o mais importante de tudo, se ainda me amariam ao final da jornada.


O amor permaneceu, mas tivemos problemas.



  

  

  

  

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