XXIII - Pós Apocalipse - Parte 2
Já era quase maio quando as coisas começaram a funcionar novamente. Ainda haviam chuvas ocasionais, e um medo generalizado de que o caos pluvial continuasse por mais tempo.
Entretanto, o pior do pesadelo havia passado, e era hora de tirar os cavalos dos telhados e reconstruir nossas vidas.
Mas, como sempre acontece nessas situações, enquanto algumas pessoas mostram o seu melhor em generosidade e compaixão, outras mostram seu pior, em egoísmo e falta de empatia.
Voltei a trabalhar, mas cada dia era uma surpresa. Passei situações desagradáveis, em especial com um cliente, do qual preferi abrir mão, simplesmente para não compactuar com pessoas mesquinhas que não acrescentam nada à sociedade, só pensam em chupar e lucrar. As pulgas, das quais Dostoiévski falou (Uma pena eu não ter a coragem de Raskólnikov para usar um machado).
Eu estava lascado. Mas não deixaria ninguém se aproveitar de mim por isso. Ainda tenho minhas bolas (e não são pequenas. E você, que se recusou a me pagar, pega o dinheiro, compra uma dentadura, enfia no cu e ri pro caralho, morô?).
-------- pausa para esfriar a cabeça --------
Enfim, eu estava lascado, então tentei receber alguma ajuda, da mesma maneira que tentei quando veio a pandemia do Covid-19. E da mesma maneira, não consegui.
Tentei os auxílios do governo para quem está lascado, mas parece que, se você é branco e heterossexual, você não é digno de nenhum tipo de auxílio. Nem no governo anterior durante a pandemia, nem no atual, consegui qualquer ajuda (Por isso não dou meu voto a nenhum desses merdas. Governo de cu é rola. No fim, sou eu por mim mesmo. Escolham aí o palhaço da vez, e eu vou lutando como posso).
Aí tentei a tal "Lei Paulo Gustavo", que deveria beneficiar artistas que vivem da sua arte, mas parece que a panelinha é maior do que a coerência nessa cidade lixo.
Os critérios ridículos de seleção beneficiaram pessoas bem menos presentes no meio musical do que eu, e que nem vivem disso como eu vivo. Eu dependo totalmente da música, fiquei quase um mês parado sem ganhar nada, e mesmo assim não fui digno do dinheiro deles (Talvez, eu não tenha comido as pessoas certas).
Enfim, continuo lutando para repôr o rombo do que perdi com a enchente. Mas, como minha casa não inundou, então não tenho direito a nada. Não sou negro, indígena, gay ou comedor queridinho de alguém influente, então não mereço ajuda do dinheiro (não tão) público. Esse é o nosso país - impávida catástrofe.
E quanto à iniciativa privada, houve quem podia me ajudar, mas tentou me sugar. Chutar cachorro morto é fácil.
Enfim, restaram parcerias boas, e seguimos o baile. Nunca precisei mendigar, nem tocar por janta, e não vai ser agora.
Meu trabalho continua sendo executado com a mesma excelência, e continuará assim. E deixo as bolsas e auxílios para quem é mais malandro. Eu faço o meu sozinho.
O Cabeludo está e continuará ON.
Comentários
Postar um comentário