XXII - Pós Apocalipse - Parte 1
Bem, algumas coisas mudaram em minha rotina, e passei por algumas situações caóticas. Mas no nosso estado se diz que "não tá morto quem peleia", então, cá estou, mais vivo do que nunca, para satisfação dos amados e desespero de alguns.
Onde estávamos mesmo quando parei de escrever? Ah, sim, na cômoda era pré-diluviana da nossa cidade.
Sim, foi o fim do mundo, minha gente. Quando as chuvas começaram a forçar a barra, eu vi minha agenda sendo esvaziada (com razão) e minha rotina de shows indo para o buraco. Eu não tinha o que fazer. Parecia mentira. Eu não via nenhum caminho.
Claro que havia gente perdendo muito mais do que dinheiro, e eu consegui compreender isso apenas depois do colapso dos meus nervos culminar em um desmaio repentino no chão do banheiro.
Acabei passando um dia no hospital e descobrindo que sou hipertenso (o que explica muito sobre minhas dores de cabeça no passado), e voltei para casa, com medo. E não sou de sentir medo.
Agora era hora de aceitar a realidade e fazer o que precisava ser feito. Na verdade, a coisa mais difícil de todas: esperar, mesmo vendo minhas finanças escoando mais que a água da chuva (a qual, por sua vez, não escoava de jeito nenhum).
Foram dias tristes. Eu parei de conversar com as pessoas para não ficar enchendo os outros com reclamações. Simplesmente me fechei no meu mundo, com meus livros e jogos e música. Aliás, bem pouco peguei o violão. Quando pegava, lembrava que devia estar tocando, e isso acabava comigo.
Por mais que pensasse em soluções, não encontrava. Cada dia que acordava de manhã e ouvia o barulho de chuva, era como uma facada nas minhas costas.
Lembro de um dia específico, em que eu estava sem luz, internet, água e lá fora a chuva não dava trégua.
Já estava a quase 20 dias sem trabalhar, e toda notícia era triste. Eu estava aqui, sozinho no silêncio, e era como se a vida dissesse que eu precisava parar e reiniciar o sistema.
Gravei um vídeo cantando The Sound of Silence. Quando terminei de gravar, finalmente chorei. E chorei enquanto editava o vídeo, e não foram lágrimas de auto compaixão. Foram lágrimas verdadeiras, por não ter controle sobre nada, por não poder ajudar tantos que estavam sofrendo, e por estar tão frágil diante de tudo.
Saí e comprei um chip de outra operadora, para ao menos ter rede. Quando voltei para casa, a luz e a internet tinham voltado. Parecia que o universo estava se divertindo com isso. Mas sair me fez respirar e mandar um foda-se. Quer saber? Se não posso fazer nada, vou curtir férias (não remuneradas).
Afinal, como eu ouvi muito em São Paulo, o que não tem remédio, remediado está.
Zerei Resident Evil VII, terminei uns livros que estavam pendentes na lista, assisti uns filmes de terror antigos e novos, voltei a falar com as pessoas e, quando eu estava de boa com a situação, a chuva parou.
E agora?
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