XXVII - Notas de Um Ano Zoado
Dizem que o que não te mata te deixa mais forte. Pois bem, está chegando o réveillon, então vistamos a camisa branca coladinha. Se você chegou até aqui, está com um excelente físico.
Mas como nem tudo é merda, aprendi diversas lições este ano. E algumas delas eram revisões de lições já aprendidas anteriormente (porque somos humanos e, consequentemente, estúpidos e com a memória pateticamente curta).
Parece que cada mês de 2024 foi uma fase de um jogo Souls-like cuidadosamente desenvolvido por programadores japoneses psicopatas com muita imaginação, um filme de terror jump scare apavorante, a ponto de eu me considerar plenamente feliz se, em 2025, eu conseguir apenas trabalhar normalmente o ano todo.
Sem mais delongas, vamos à retrospectiva com suas respectivas lições.
1. Janeiro - Fique esperto em quem atrasa seu lado.
Muitas pessoas se aproximam da gente para tirar algum tipo de vantagem. No mundo profissional isso é perfeitamente normal. A gente faz trocas. Mas em janeiro, percebi que isso estava se acentuando cada vez mais, e percebi que invejas pessoais estavam levando pessoas a querer me prejudicar profissionalmente. Então, nunca tenha medo de cortar relações com pessoas que não te acrescentam. Essa lição me serviu pelo resto do ano, e finalizo o ano, novamente, executando esta ação.
2. Fevereiro - Às vezes, fazer o bem pode irritar as pessoas.
Em fevereiro, me envolvi com alguns projetos pela causa dos animais de rua, e realmente pensei estar fazendo uma coisa boa. Mas caíram em cima de mim, como se eu apenas quisesse me promover, aparecer, a ponto de receber críticas agressivas em redes sociais. Alguns donos de bares começaram a querer que eu levasse os eventos para lá, para eles terem lucro, enquanto eu toco de graça pela causa. Virou um festival de propostas indecorosas de barganha, críticas e acusações de autopromoção ( vou me promover a QUÊ, meu deus? Músico de bar nível 2?).
Hoje, desisti dos shows em forma de caridade. Em vez disso, adoto meus animais e cuido deles o melhor que posso com as condições que eu tenho. Se todos fizerem isso, o problema acaba.
3. Março - Nem tudo é o que parece.
Na metade do mês, me vi mais uma vez solteiro. Eu estava envolvido com o trabalho, os animais e tudo mais. Aconteceram alguns mal entendidos e a morena terminou comigo pela 11ª vez (11 é um número bacana. 10 a gente pode pensar que vai ser a última vez, mas 11 abre novos precedentes).
Enfim, não me empolguei com a solteirice, mas também não fiquei chocado com o término. Segui normalmente a vida, e conversei com algumas pessoas. Algumas não tinham o que eu queria (uma tinha uma coisa que não quero, mas deixa pra lá... Como eu aprendi, nem tudo é o que parece.), enquanto outras pareceram ser o que não eram, como veremos mais adiante.
Enfim, eu estava resignado a uma solidão que não queria. Como diria algum sertanejo, culpa da morena.
4. Abril - No fim das contas, você está sozinho.
Você já se sentiu acomodado? Enfim, em abril as coisas pareciam andar bem. O azar no amor me trouxe sorte no jogo. Até que as nuvens fecharam sobre o RS e se recusaram a ir embora. E começaram os cancelamentos de shows, e meu jogo virou.
Aqui estava eu, sozinho, sem ter o que fazer a não ser esperar. Foquei nos games, na música, nos livros.
Eu me sentia só, e reclamei disso. (Em alguns meses, desejaria ardentemente estar só...)
Eu reclamei bastante e, quando o mês chegou ao fim, meus nervos estavam à flor da pele. Pessoas começaram a perder tudo o que tinham, e eu comecei a perder o dinheiro que ainda não tinha.
O mês acabou, e minha saúde também.
5. Maio - Você não vai durar para sempre.
Acordei no dia 1 de Maio com muita vontade de ir ao banheiro, mas meu cérebro não conseguia definir o que exatamente eu queria fazer lá. Mesmo assim fui cambaleando. A última coisa que lembro foi que ajoelhei para vomitar. Depois, fui acordando lentamente de um sono gostoso, e estava deitado no box com a cabeça a 2 centímetros da parede. Não vi o desmaio chegando mas, se estivesse em pé, teria arrebentado a cabeça na parede.
Eu estava jogado no chão, nem vou descrever as condições, mas apenas abri o chuveiro e fiquei ali, chocado com o fato de que, a qualquer momento, nosso corpo pode parar e já era!
Depois do banho filosófico, peguei o celular. Eu não quis preocupar minha mãe com isso. Mandei mensagem pra morena e contei que quase morri.
Antes de responder ela veio, tipo um Batman com corpo de modelo de lingerie. Aí ela me arrastou para o hospital e fiquei o dia lá. (Seja bem vindo, Maio.)
Voltei pra casa à noite mas, nos dias seguintes, a luta continuou.
A cada manhã, eu abria os olhos e ouvia o som de chuva. Não tenho palavras para dizer o que sentia. O sentimento de raiva se transformou em tristeza, uma tristeza profunda, não só pelo meu trabalho perdido, mas pelas pessoas perdendo suas casas, pelos animais desamparados, pelas pessoas aglomeradas em galpões, e pela minha saúde que ia pelo ralo (eu aferia a pressão a cada duas horas). Eu odiava com força cada manhã chuvosa.
Gravei um vídeo tocando The Sound of Silence, com cenas dos resgates. Eu chorei cantando, chorei editando e chorei porque não tinha internet para publicar o vídeo. Eu estava na merda.
Até hoje, quando chove, eu sinto uma coisa ruim.
No meio do mês, as coisas começaram a melhorar.
Porém, algumas pessoas se mostraram extremamente egoístas, enquanto outras tiveram empatia, e acabei cortando relações profissionais com algumas, e fortalecendo com outras.
Mas a enchente trouxe mais tranqueiras do que eu esperava.
Em março, eu tinha conhecido uma menina de outra cidade pela internet, e conversamos por um tempo. Eu nem estava mais falando com ela devido aos problemas que estava passando, então eu nunca pensei que ela viria aqui.
Pois bem, a guria me disse que estava vindo me conhecer. No meu momento mais merda. Lei de Murphy.
Então, nos conhecemos, e por algum motivo que não entendo bem, começamos a namorar. Ela era 20 e poucos anos mais nova que eu e, no tesão do momento, sugeri que ela poderia morar comigo ao invés de voltar pra cidade dela.
Em minha defesa, aquele desmaio mexeu um pouco com a minha cabeça, e eu não queria ficar sozinho.
(E a forma como ela disse que nunca tinha conhecido ninguém como eu, e como eu era com certeza o homem da vida dela, como todos trataram ela como lixo e eu era tipo um príncipe encantado, e que nunca iria embora, tudo isso me fez acreditar que era uma boa ideia...)
Antes que pudéssemos amadurecer a ideia, ela já havia mandado mensagem para o pai dela trazer as coisas dela. (Imagina a alegria de um virginiano vendo um monte de sacos de roupas, calçados, bonecas e outras coisas entrando pela sua porta.)
Assim, quando Maio terminou, eu era um homem casado, hipertenso, quebrado, e só conseguia pensar "o que eu fui fazer?"
6. Junho, Julho, Agosto - A casa de um homem é seu templo. Cuidado com quem você traz para dentro.
O jeito era aproveitar o momento. Tentei fazer tudo certinho. Comprei alianças e tal, e compartilhei minha casa e minha vida com uma garota que eu mal conhecia. Na verdade, até hoje não conheço. (A geminiana criou um personagem sob medida para mim.)
A família dela não escondia seu desprezo por mim (Afinal, eu sou apenas um gostoso sem grana que vive às próprias custas) e isso tornava a coisa um pouco turbulenta e desconfortável.
Passamos quase quatro meses em uma relação baseada apenas em sexo, filmes e video game. No meio disso, não percebi que eu não vivia mais a minha vida.
Não podia ir fazer meu trabalho sem ela estar junto, não podia praticar meus instrumentos sem ela cobrar minha atenção. Ela queria que eu assistisse desenho da Barbie com ela, porque o pai dela assistia.
Eu odeio a Barbie. Algo estava errado.
7. Setembro - Não existem perdas e ganhos quando você segue seu coração.
Quando Setembro chegou, aquela brincadeira de casinha não estava funcionando mais para mim, e decidi que assistir Barbie era um preço alto demais para ter aquilo. (Não ria, você pode passar por isso, um dia.)
No dia do meu aniversário, cheguei do trabalho à 1 da manhã. Ela sequer lembrou que era meu aniversário e tivemos uma discussão, por diversos motivos.
E percebi que estava completando 43 anos discutindo com uma garota de 18 anos. Ela começou a tirar uma com a minha cara, e pensei, tô velho demais pra essa merda.
Então, nos primeiros 40 minutos do meu aniversário, terminei com ela. Falei a real - que não a amava como deveria amar, e sentia que ela era jovem demais para estar presa a mim. E disse pra ela pegar as Barbies dela e dar o fora.
Na manhã seguinte, era meu aniversário e eu tinha minha vida de volta.
8. Outubro - Resolva as coisas. E se a resolução não depender de você, está resolvido.
Aprendi que a pior forma de terminar uma relação é sendo honesto. Então, tive que sofrer a retaliação das difamações de sempre.
Então, precisei lidar com minhas emoções quanto a isso. Quando pessoas falam mentiras a seu respeito, o melhor a fazer é se calar. A verdade sempre vem à tona.
E se uma pessoa não quer resolver algo pendente, e você quer, relaxe. Para você está resolvido, e acho que o Universo entende assim.
No fim, decidi dar um tempo à vida amorosa, e focar no meu trabalho, agora que minha atenção podia, novamente, ser usada para coisas produtivas.
9. Novembro - Reveja suas prioridades e foque no que é mais importante.
Depois de toda a devastação causada pela natureza e pela carência, era hora de reconstruir. Foquei toda minha energia em vender meu trabalho. Sem tempo a perder.
Onde você foca sua energia, inevitavelmente frutifica.
Trabalhei a ponto de não conseguir pensar mais em nada. Criei coisas novas, estudei, investi no repertório, fiz meu marketing. No fim, o que resta é minha arte, e arte depende de uma mente em paz.
E você só fica em paz quando prioriza a coisa certa.
10. Dezembro - Depois da tempestade...
Dezembro chegou, e a minha agenda estava lotada. Consegui recuperar o tempo, energia e dinheiro perdidos nas chuvaradas e outras confusões de 2024, e me reorganizar, para começar 2025 do jeito certo, muito mais sábio e igualmente gostoso.
Decidi me dar um violão novo, como símbolo de tudo que passei para finalizar esta jornada.
Hoje vou fazer minha última apresentação do ano. Tenho certeza que, em algum momento, sem ninguém perceber, vou chorar. Mas serão boas lágrimas.
Como falei no começo, quem disser que 2024 foi fácil, não entendeu direito. Todos estamos mais fortes e mais sábios. E igualmente gostosos.
E você, aprendeu algo em 2024? Compartilha aqui nos comentários!
Feliz 2025!
O Cabeludo estará ON!
Comentários
Postar um comentário